27 julho 2010

Calvinistas amargos?

Não entendo como pessoas inteligentes e tão capazes, que abençoadas por Deus com o entendimento correto do Seu evangelho, podem se tornar tão amargas? Tudo bem que devemos crer firme e inegociavelmente nas Escrituras Sagradas, e disto absolutamente não abro mão, mas cuspir maribondo quando alguém discorda, creio ser exagero! Honestamente falando não vejo motivo de corroer o opositor numa ácida verborragia.

Você que me lê deve pensar qual o motivo deste artigo?! Pois bem, estive pensando como pessoas que conhecem a graça que é imerecida, devido à nossa pecaminosidade; que é irresistível, devido à soberania divina; que é terna, devido ao amor eletivo de Deus; não entendo como estas pessoas que conhecem as Doutrinas da Graça, e vivem os benefícios do eterno decreto de Deus, em Cristo, conseguem viver um orgulhoso isolamento? Com facilidade agridem até mesmo os confrades. É uma incoerência absurda entre o sistema de pensamento e prática! B.B. Warfield esclarece que o
calvinista é o homem que vê Deus por trás de todo fenômeno, e, em tudo o que sucede, reconhece a mão de Deus operando a sua vontade; o calvinista, em todas as atividades de sua vida adota uma atitude permanente de oração; o calvinista se entrega completamente à graça de Deus e, exclui qualquer traço de autosuficiência em toda a obra da salvação.[1]

Sei que há adiáforas que nos separam. Certa feita pensei em escrever um artigo sobre os pontos de discordância entre os calvinistas. Mas, fui tomado por um discernimento mais agudo da minha motivação, que me levou a perceber a implicação antecipada do meu perverso intento. Percebi que estaria apenas contribuindo para aumentar as lacunas que existem, e de nada aproveitaria, senão para enfatizar aos adversários do Calvinismo que há pontos menores que nos dividem; e, também estaria fortalecendo animosidades desnecessárias. Se alguém me pedir pra, pelo menos, mencionar em esboço que pretendia escrever, responderei: arreda Satanás!

Não acredito que como calvinista preciso esmagar os meus adversários teológicos. John Newton, calvinista e escritor do famoso hino Amazing Grace, certa vez escreveu que
quanto ao seu oponente, eu desejo que, antes mesmo que você coloque a sua pena sobre o papel contra ele, e durante todo o tempo em que estiver preparando a sua resposta, possa você entregá-la, por meio de sincera oração, ao ensino e à benção do Senhor. Esta prática terá uma tendência direta de levar o seu coração e amá-lo, bem como de ter compaixão dele. Tal disposição terá uma boa influência sobre cada página que você escrever. [2]

Conheço alguns calvinistas que são amargos de doer. Talvez, seja realidade na experiência de alguns dentre nós [afinal também sou calvinista] o modo como Ralph W. Emerson jocosa, mas equivocadamente, descreveu: conheci um médico brincalhão que descobriu o credo no canal biliar e costumava afirmar que se houvesse uma doença no fígado, o homem havia se tornado um calvinista [3]. Não estou convencido em dizer que calvinistas amargos, sejam calvinistas no sentido completo do termo, ou que realmente ensinem coerentemente sobre a soberana graça de Deus, pois a sua postura evidencia que perderam um aspecto essencial da graça de Deus, ou seja, a ternura.[4]

Nota:
[1] B.B. Warfield, Calvin as a Theologian and Calvinism Today, p. 24.
[2] John Newton, "On Controversy" in: Works of John Newton, vol. 1, págs. 268-269.
[3] Alister McGrath, A vida de João Calvino , pág. 153.
[4] A amargura fecundada pela ofensa é uma disposição pecaminosa que constantemente tem assediado o meu coração. Somente o entendimento e a mortificação deste pecado, pela graça de Deus, leva a desfrutar duma percepção correta da graça de Deus e viver a sua ternura.