23 fevereiro 2015

CARTAS AO JOÃO MARCOS – 2

Aprendendo com o sofrimento

Meu amado filho João Marcos

Confesso que nestes últimos dias o meu coração anda com certa medida de tristeza. Entretanto, o Senhor tem me alimentado com a Sua Palavra e confortado com o contínuo cuidado de irmãos. Não tenho desperdiçado do que tem acontecido à nossa família, mas meditado como a boa mão do Senhor tem nos amparado e dirigido.

Vou registrar a história desses dias porque é possível que daqui a alguns anos você não se recorde mais dos detalhes do acidente. A memória dos fatos nos ajuda a sermos gratos. Levamos cerca de dois anos programando um momento oportuno para descansarmos na casa flutuante dos nossos amigos Genésio e Ni, bem como com os nossos amados irmãos Mário Sérgio e família. Chegamos sexta-feira a tarde, almoçamos e fomos pescar. Aquele é um lugar lindo de beleza natural, um ambiente propício para revigorar as forças e ter um tempo de comunhão em família. Tudo ia muito bem, um lugar lindo, a família reunida com amigos, e boa pescaria. O fim de semana prometia ser muito agradável!

Não imaginávamos o que o Senhor tinha reservado para nós naquele início de noite. Você machucou acidentalmente o teu olho com o anzol e a chumbada ao puxar a linhada com que pescava! Você foi homem o suficiente para tirar o anzol do olho e suportou a dor, sem gritos, sem murmurar e nem falar coisas que pudessem desagradar ao nosso bom Deus. Você não demonstrou rebeldia questionando por que Deus deixou acontecer aquele acidente. Suportou a dor e aceitou com contentamento. Confesso que aprendi a admirá-lo ainda mais, e senti uma satisfação muito grande porque o Senhor me deu como filho um verdadeiro homem.

Eu não estava no flutuante no momento do acidente, porque havia saído de barco para pescar com os tios Mário Sérgio, Vinicius e Igor. Quando cheguei mamãe me deu a triste notícia, e fui vê-lo imediatamente. Encontrei você deitado, quietinho, com o olho coberto, e você me disse: “estou bem papai”. Aquela noite foi longa, e pela primeira vez na minha vida tive dificuldades para dormir. Fiquei pensando qual seria a real gravidade e no que poderia acontecer com o teu olho, e se a demora em leva-lo ao médico não prejudicaria ainda mais. Mas, sair naquela hora da noite não seria prudente. Então, restava-nos a opção de esperar amanhecer o dia, e acima de tudo, esperar na providência do Senhor Deus.

Ao amanhecer, bem cedo, fomos levados pelo sr. Genésio até Porto Velho. A viagem durou cerca de duas horas de barco e depois continuamos numa camionete para a cidade. Chegamos ao CEOF [Centro de Oftalmologia] onde com urgência e competência fomos atendidos pelo Dr Valdemar K. Kjaer. No primeiro momento muita coisa era incerta, porque dependíamos de alguns exames, e de como o seu organismo reagiria ao trauma e aos medicamentos. Assim, uma cuidadosa assistência nos foi dada pelo Dr Valdemar e Dr Gustavo que entre o Sábado até a Terça-feira, insistiram em examinar a reação do teu olho em oito diferentes consultas. As piores possibilidades foram pouco a pouco sendo eliminadas, mas uma catarata se desenvolveu, e a pressão do teu olho subiu, de modo a preocupar os médicos. Em uma semana a pressão foi controlada, mas você terá que passar por uma cirurgia por causa da catarata. A nossa incerteza neste momento é quando isso será possível. Infelizmente você não está enxergando com o olho ferido. Embora isso seja um motivo de tristeza, somos gratos ao Senhor e continuaremos orando e confiando nEle.

Dói-me muito vê-lo limitado por não poder viver as coisas próprias de sua idade. Você é um menino muito alegre e cheio de energia. Normalmente você corre, agita-se e gosta muito de futebol, de desenhar e brincar das coisas próprias dos meninos de sua idade. Mas, agora, às vezes, você se entristece por não poder acompanha-los nas diversões, que neste momento são perigosas para o teu olho. Percebo que uma simples conversa acalma a sua tristeza e conseguimos redirecionar a sua agitação para outra atividade. Nestes últimos dias o João Pedro revelou-se num verdadeiro amigo, deixando de divertir com outros meninos, para ficar fazendo companhia para você.

Confiamos na bondade do nosso Senhor Deus. Entregar o nosso coração ao desespero ou ao descontentamos não glorificará ao Senhor, nem servirá como testemunho do evangelho que cremos. Ao meditar no Breve Catecismo de Westminster lemos na pergunta 2 – Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de glorificar e gozá-Lo? Então, ele responde que: “A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento é a única regra para nos dirigir na maneira de glorificar e gozá-Lo.” Isto é profunda e extensivamente verdadeiro. Somos fracos e facilmente tentados a ceder à dúvida por causa do sofrimento. Mas, a Escritura nos oferece uma correta cosmovisão para tudo o que ocorre conosco. Existimos para glória de Deus, e o verdadeiro significado de nossa vida está em satisfazer-nos em seus atributos divinos e vontade. O único modo de conhecermos a Deus de modo correto, e entendermos a sua perfeita vontade é pela Escritura Sagrada. Assim, podemos entender o Catecismo de Heidelberg que nos instrui na questão 2. “O que você deve saber para viver e morrer neste fundamento?” E a resposta é: “Primeiro: como são grandes meus pecados e minha miséria. Segundo: como sou salvo de meus pecados e de minha miséria. Terceiro: como devo ser grato a Deus por tal salvação.” Sabemos que a graça do Senhor é melhor do que a vida. Porque uma vida sem a graça não vale a pena ser vivida, por não ter sentido, e por ser atormentada pelo pecado, e o terror da condenação da justa condenação de Deus. Todas as dores, pesares e amargas tragédias que o nosso Senhor nos concede são para estimular a nossa percepção na sua doce graça.

Meu filho, o nosso coração se une ao salmista que declara que “tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos, para nos esmagares onde vivem os chacais e nos envolveres com as sombras da morte. Se tivéssemos esquecido o nome do nosso Deus ou tivéssemos estendido as mãos a deus estranho, porventura, não o teria atinado Deus, ele, que conhece os segredos dos corações? Mas, por amor de ti, somos entregues à morte continuamente, somos considerados como ovelhas para o matadouro.” (Sl 44:17-22). E mais uma vez, reforça que “foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119:71). Somos alimentados com a Palavra de Deus no decorrer destes dias de espera e indecisão, em que somente podemos confiar que o Senhor Deus nos guiará, pois está no controle absoluto, usando pessoas, e preservando sob todo cuidado o nosso coração para amá-Lo acima de todas as coisas.

Assim, em tudo, quer sejam coisas boas ou ruins, alegres ou tristes, temos a inabalável certeza de que somos imutavelmente amados com toda perfeição do nosso Deus. Somos ordenados a amá-Lo acima de todas as coisas, com todo o nosso coração, de toda a nossa alma, e de todo o nosso entendimento [Mt 22:37].

2 comentários:

Pr. JEFFAUM disse...

Em Oração por meu irmão mais novo. Como se fosse meu filho. Que a paz do Eterno lhe proteja e que o Senhor possa nos surpreender novamente.

Unknown disse...

Pastor, espero em Deus que tudo dê certo e que esta provação seja para crescimento espiritual de vocês! Grande abraço à família!